Mercúrio permanece no solo mais de 50 anos após o garimpo
Pesquisa realizada em quatro biomas brasileiros revela impactos duradouros da mineração ilegal e aponta o biocarvão como uma possível estratégia para recuperar áreas contaminadas.
Pesquisa conduzida em quatro biomas brasileiros avaliou a qualidade de solos que passaram por atividades ilegais de mineração. Amostras coletadas na Mata Atlântica indicam persistência de contaminação por mercúrio 52 anos após o garimpo na região.
Diante dos impactos desse resíduo metálico no ecossistema, pesquisadores da USP apontam uma solução baseada no uso de biocarvão, material capaz de reter mercúrio, ajudar na reposição de carbono e contribuir para a recuperação do solo.
Acessar estudo científicoMesmo depois de mais de cinco décadas sem atividade de mineração, o mercúrio ainda permanece ativo no solo.
A permanência do contaminante representa risco para os microrganismos, animais e seres humanos, já que o mercúrio pode circular pelo ambiente e alcançar a cadeia alimentar.
O que os pesquisadores investigaram
O estudo avaliou de que forma as práticas ilegais de mineração e as variações climáticas sazonais influenciam a mobilidade do mercúrio, a qualidade da matéria orgânica e a estrutura da comunidade bacteriana dos solos.
As amostras foram submetidas a diferentes análises, incluindo extração, sequenciamento e processamento de DNA, permitindo avaliar como a mineração altera a composição e a diversidade das comunidades bacterianas.
“Em longo prazo, o mercúrio permaneceu ativo no solo, o que representa um risco para a microbiota, os animais e até os seres humanos, porque esse elemento pode entrar na cadeia alimentar.”
Empobrecimento do solo e seleção de bactérias
As diferentes condições ambientais de cada bioma funcionam como “filtros” que selecionam os microrganismos mais capazes de sobreviver à contaminação e à escassez de nutrientes.
Com o estresse provocado pelo mercúrio e pela perda de carbono, a diversidade microbiana diminui. Isso pode alterar os processos de decomposição da matéria orgânica, comprometer o equilíbrio do solo e reduzir a capacidade do ecossistema de armazenar carbono.
Retirada da matéria orgânica
A atividade de mineração remove as camadas superficiais do solo, naturalmente ricas em carbono e nutrientes.
Entrada do mercúrio
O contaminante impõe uma pressão adicional sobre comunidades microbianas já fragilizadas.
Perda de diversidade
Permanecem apenas microrganismos mais tolerantes, comprometendo funções fundamentais do ecossistema.
“Não adianta tentar recuperar o solo pensando nele como um sistema não vivo. É preciso pensar estratégias de recuperação que considerem esses seres vivos e as funções que desempenham no ambiente.”
Restauração “viva”
Os pesquisadores defendem que a recuperação de áreas degradadas deve considerar não apenas a composição química do solo, mas também a reconstrução de seus estoques de matéria orgânica e da diversidade funcional de microrganismos.
Conhecer quais espécies desapareceram e quais funções deixaram de ser exercidas pode ajudar no desenvolvimento de estratégias mais específicas de recuperação, direcionando nutrientes, fertilizantes e outros insumos.
Biocarvão pode ajudar a recuperar solos contaminados
Com alta concentração de carbono, o biocarvão pode contribuir para repor parte do carbono perdido, reter água e funcionar como uma espécie de “esponja”, adsorvendo o mercúrio e reduzindo sua mobilidade e toxicidade no ambiente.
Ajuda a reconstruir os estoques de carbono perdidos durante a degradação do solo.
Pode melhorar características físicas importantes para a recuperação do ambiente.
Atua na retenção do contaminante, diminuindo sua circulação pelo ecossistema.
A contaminação do solo também é uma questão de saúde pública
Por permanecer durante décadas no solo, o mercúrio pode ser absorvido por plantas e animais e alcançar populações humanas por meio da cadeia alimentar. Por isso, compreender sua dinâmica no ambiente pode contribuir tanto para estratégias de recuperação quanto para a formulação de políticas públicas.
Segundo Alleoni, o solo costuma ser lembrado principalmente por sua relação com a produção de alimentos, mas também recebe resíduos industriais, materiais da construção civil, óleos, poluentes e outras substâncias resultantes da atividade humana.
O estudo evidencia como um elemento tóxico associado à mineração ilegal pode permanecer disponível durante décadas, oferecendo riscos ambientais e à saúde humana.






